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Quando a experiência torna simples o que é complexo

  • Dr. Marcelo Araújo
  • há 12 horas
  • 3 min de leitura

“Reflexões após o Vascular Connect 2026 sobre conhecimento, experiência e o cuidado com os pés das pessoas com diabetes.”



No dia 2 de setembro, tive a satisfação de participar, como debatedor, do Vascular Connect 2026, promovido pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Regional Bahia. O encontro foi dedicado à abordagem prática da neuropatia e da infecção nas alterações dos pés relacionadas ao diabetes.

O convite teve para mim um significado especial.

O palestrante, Dr. Cícero Fidelis, além de colega e amigo, foi meu professor e abraçou esse tema há mais de três décadas. De alguma forma, nossas trajetórias voltaram a se encontrar em torno de um problema ao qual também tenho dedicado uma parte importante da minha vida profissional.

Desde que retornei a Itabuna, participo do Mutirão do Diabetes de Itabuna, coordenado pelo oftalmologista Dr. Rafael Andrade. Ao lado da Profa. Roseanne Rocha, enfermeira, organizo e coordeno a área dedicada à prevenção, avaliação e cuidado das alterações dos pés das pessoas com diabetes.

O Mutirão começou em 2004 e chegou, em 2025, à sua 21ª edição. Ao longo desse período, transformou-se em uma grande iniciativa multidisciplinar e multiprofissional de prevenção, diagnóstico, educação e cuidado das complicações relacionadas ao diabetes.

São muitos anos olhando para os pés — mas, sobretudo, cuidando das pessoas que caminham sobre eles.

A linguagem também importa

Durante essas duas décadas, não mudou apenas o conhecimento. Mudou também a maneira como procuramos falar sobre a doença.

A própria International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF) utiliza atualmente a expressão diabetes-related foot diseasedoença do pé relacionada ao diabetes — para se referir à doença no pé de uma pessoa com diabetes atual ou previamente diagnosticado, quando associada a uma ou mais condições como neuropatia periférica, doença arterial periférica, infecção, úlcera, neuro-osteoartropatia, gangrena ou amputação.

Uma pessoa com diabetes não é um “pé diabético”. E nem todo pé de uma pessoa com diabetes está doente.

Prefiro, portanto, falar em pessoas com diabetes e nas alterações que podem ameaçar a saúde de seus pés. A mudança de palavras acompanha uma mudança de perspectiva: reconhecer riscos, prevenir lesões e intervir antes que as complicações aconteçam.

Afinal, preservar um pé começa muito antes de existir uma ferida.

A simplicidade que só o conhecimento permite

Foi particularmente precioso ouvir novamente o Prof. Cícero.

Sua apresentação me fez lembrar uma ideia frequentemente associada ao físico Richard Feynman: compreender profundamente alguma coisa também significa conseguir explicá-la de maneira simples.

Não se trata de simplificar o conhecimento até torná-lo superficial. É quase o contrário.

Há uma simplicidade que nasce da falta de conhecimento e outra, muito diferente, que só aparece depois de atravessarmos a complexidade.

Foi essa segunda forma que reconheci naquela apresentação.

Neuropatia, infecção, avaliação clínica e decisões terapêuticas poderiam facilmente se perder entre classificações, protocolos e terminologia. Nas mãos de alguém que convive com o assunto há décadas, entretanto, o complexo encontrou clareza.

Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de maturidade na medicina: estudar profundamente a complexidade e, depois, conseguir devolvê-la aos outros em forma de simplicidade.

Ouvir e depois poder debater aquela apresentação foi, para mim, um momento especial.

Conhecimento que circula

O encontro também reforçou algo que considero essencial: o papel das sociedades médicas como espaços de encontro, atualização e circulação do conhecimento.

Por isso, deixo registrado meu reconhecimento ao presidente da SBACV Bahia, Dr. Patrick Metzger, e ao nosso anfitrião e coordenador do Vascular Connect, Dr. Maurício Aquino.

Criar oportunidades de atualização científica de alto nível e, ao mesmo tempo, colocá-las ao alcance dos associados é uma contribuição concreta para nossa especialidade.

Sou grato pelo convite e pela oportunidade de participar.

Depois de tantos anos trabalhando com as complicações do diabetes, encontros assim também nos recordam de algo importante:

A experiência não encerra o aprendizado. Talvez apenas nos ensine a reconhecer melhor de quem ainda vale a pena aprender.


Dr. Marcelo Araújo Angiologia e Cirurgia Vascular


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